Quando eu morava
num pensionato de moças na capital era praticamente um bichinho do
mato. Sofria de uma timidez galopante e muita insegurança. Aos dezoito anos, não
sabia cozinhar e, nem ao menos, passar um café. Minha mãe trabalhava fora e contávamos
com uma ótima secretária. No entanto, meu pai queria que a gente aprendesse a
cozinhar e até fazer feira.
Eu tinha que acordar muito cedo e, isso, já era uma
promessa de mau humor. O cedo do meu pai eram seis horas da manhã. Muito
diferente do meu horário biológico. Afinal, apenas estudava e não trabalhava.
Aprendi alguma
coisa, mas poderia ter aprendido mais, porque faltou interesse.
À noite, minha
irmã e eu conversávamos no quarto:
- Sábado que vem é
sua vez de ir à feira.- avisei enquanto minha irmã se mexia nas cobertas.
- Ah, não! Que ideia é essa do papai? Se eu me casar vou
ter uma empregada doméstica para fazer o serviço.- rebateu minha irmã.
Retruquei:
- O papai falou que a gente tem que aprender a fazer para
depois ensinar a empregada.
Quando fui para São
Paulo estava bem crua, mas meu objetivo era estudar para o vestibular. A dona
da pensão tinha duas ótima secretárias. Eu só não apreciava o frango com quiabo. Não
havia cardápio, é óbvio! Ou você comia frango com quiabo ou comia frango com
quiabo.
Agora, os jovens não passam mais fome. Eles enganam a fome com fast food e aqueles lanches de dois, tres e até quatro andares. A juventude mergulha faminta naquele monte de carne prensada, queijo e suculentas batatas fritas.
Eu dividia o quarto
com mais três moças. Havia uma jovem bem
magrinha do Estado do Matogrosso. Ela era muito engraçada e segura de si. Outra
moça era da cidade de Tatuí; chegou antes e conseguiu lugar para suas roupas no armário. Gostava de observar a Mariana (nome fictício) escolher seus
terninhos. Mariana tinha um terninho de cada cor. Era muito
delicada e bonita, mas não gostava muito de conversar. Outra moça era baixa e muito séria e costumava ter visões e pressentimentos. Eram aproximadamente sete a oito pensionistas.
Final de semana eu
ia para a casa dos meus pais. Morria de saudades da comida, do meu quarto e das minhas coisas.
Na parte da manhã, íamos ao cursinho. Era muito puxado, mas eu adorava estudar. Meu
sonho era estudar Medicina.
Um dia, acordei me
sentindo indisposta. O corpo doía todo como se eu tivesse levado uma surra. Naquela
época, não tinha Internet disponível. Acho que eu não sabia o que era um
celular. Fui para à aula, mas não comentei com ninguém sobre o mal estar. Queria
voltar correndo pra casa, mas como?
Comecei a me sentir
febril. Pensei:
“Vou descer e ir até à farmácia!”
Queria me
sentir independente e livre. Não queria ligar para
casa e contar que não estava muito bem. A dona do pensionato nem percebeu minha
saída do apartamento.
Entrei na primeira
farmácia que eu encontrei. Um homem baixo e sorridente me atendeu. Eu me sentia
muito mal. Era o começo de uma gripe. Comecei meu colorário de queixas enquanto
o balconista me ouvia com atenção. Pediu licença e voltou com duas caixas de
remédio:
- Esse é para a
dor no corpo. A outra caixa para a febre e esses comprimidos vão tirar o mal
estar. – fiquei olhando para aquele mar de remédios. Depois, o homem acrescentou:
- Acho melhor tomar
uma injeção também!- sugeriu. – Cortará o mal pela raiz!- fiquei parada olhando
para ele. Lembrei-me da minha mãe! Quando ficava doente a iniciativa de comprar
remédios, médico, era dela. Quando dei por mim estava pronta para tomar injeção.
Foi uma picada bem dolorida no braço. Até hoje não sei qual a injeção que eu tomei!
Havia gastado todo o dinheiro da semana nos remédios. Voltei para o apartamento
me sentindo mais doente ainda.
Quando a dona do
pensionato ficou sabendo me deu aquele sermão. Falou que era perigoso sair
assim sem avisar. Olhou os remédios e me censurou:
- Você está aqui
sob minha responsabilidade! O balconista lhe empurrou um monte de remédios e não
havia necessidade! É apenas uma gripe! Não faça mais isso!- eu me senti uma
criancinha de dois anos de idade ouvindo pito. Minha mãe ficou sabendo e me
ligou. E ouvi outro sermão.
Tomei um chá, um
antifebril e fui para a cama. Fiquei de molho por dois dias. Depois, de dois
dias, a companheira de quarto me aconselhou:
- Se você ficar
somente deitada vai demorar a melhorar! Melhor reagir um pouco! Minutos depois
me levantei e fui para à aula.
Meses depois,
acordei indisposta novamente. Havia chegado mais cedo do cursinho. O
apartamento estava praticamente vazio. Só estavam as duas empregadas da dona do
pensionato. Tive uma reação súbita! Peguei uma sacola, arrumei minhas coisas e
me despedi das secretárias:
- Aonde você vai? –
perguntou uma das empregadas.- Dona Maria saiu. Não vai esperá-la?
-Ah, vou pra casa! Não estou me sentindo bem!- arrisquei.
Saí apressadamente, peguei um táxi e fui para a rodoviária.
Comprei uma passagem e voltei para a casa.
Minha mãe foi me
buscar na rodoviária. Seu rosto estava sério e muito preocupado:
- O que houve,
Sandra? Hoje ainda é quinta-feira. – Eu parecia um bebê querendo colo. Na verdade, o que eu tive foi apenas um mal
estar estomacal. Só voltei para São Paulo na semana seguinte. Esse foi meu período de adaptação. Havia uma Sandra independente que fazia cursinho e morava na capital. E outra que se sentia carente e insegura! A cartilha da gripe me ensinou muitas coisas.
Depois dessa
corajosa façanha nunca mais tive piripaquis ou crises de saudade de casa.
Agora, se você está
muito longe... Fora do seu país...E está ficando doente a coisa estão mais fáceis.
Pode falar com sua família pela Internet. Arriscar um papo no skype, mandar um
torpedo e telefonar rapidamente.
Mas o chazinho da
mamãe, a segurança da sua casa-impossível.
Tenha em seu
quarto um kit para os primeiros socorros: um antigripal, remédio para a dor, um
antiácido, mas evite a automedicação se fosse ainda não sabe o que você tem.
Não faça como eu
que fui correndo à farmácia e ainda fui enganada por um balconista para lá de
esperto.
Com o tempo você
começa a perceber que as situações novas amedrontam, mas vai tirar de letra.
Uma amiga minha foi passar um período nos E.U.A. Às vezes, ela me ligava contando suas peripécias, a saudade, as companheiras de quarto. Um dia, passou mal e foi para no pronto-socorro. Ficou internada. A enfermeira entrou no quarto e perguntou se ela estava " embaraçada". Acho que a enfermeira era de origem espanhola. Minha amiga não entendeu a pergunta e afirmou que sim. Precisou de um tempo para explicar que não estava grávida. Estar embaraçada- é gravidez em alguns idiomas.
Alguns pais são muito preocupados e ansiosos e dificultam a vida do jovem.A ansiedade deles pode colaborar mais ainda para a ansiedade do filho.
O pássaro antes de voar para bem longe do ninho arrisca seu primeiro vôo e leva alguns tombos!

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