Como eu perdi o sono e não estou conseguindo encontrar melhor escrever, não? Quem sabe o sono volta!
O que não volta mais - tenho certeza- são meus dezoito anos muito bem
vividos ou quase muito bem vividos. Estou com 56 anos e, naquela época,
tudo era diferente. Os sonhos. Dúvidas. A vida familiar.
Dividia o quarto com minha irmã Sirleny e, depois , que meus pais iam
dormir, ficávamos conversando madrugada adentro. Bem, isso antes de
começar a minha saga estudantil, vestibular e faculdade.
O termo "na minha época" parece coisa da "melhor idade." Dizem que
agora, depois dos cincoenta é a melhor idade. Não tenho mais
dezoito anos, mas a minha mente é muito jovem, jovem demais.
Quando meus pais iam dormir, minha irmã e eu ,
costumávamos fumar um cigarro. Cigarro comum! A gente não comprava
carteira de cigarro. Não tínhamos o hábito de fumar, mas, fumar
escondido era tudo de bom. Era uma sensação boa misturada a muitas
tosses,engasgos e nosso ar de jovem independente.
Lembro-me que comentei com minha irmã:
"_Que
vontade de ter minha própria casa. Aí, ninguém manda em mim. Poderemos
ir aos bailes sem pedir permissão ao papai."- enquanto eu falava soltava
a fumaça do cigarro.Só íamos ao baile acompanhadas dos nossos
pais.
Minha
irmã concordava, mas, "naquela época", o sonho não era de morar
sozinha, mas de casamento. Hoje? A mulher deixa o casamento para depois
dos trinta anos. Sua meta é a vida profissional, os estudos e o
trabalho. Casamento não é mais emprego. "Naquela época", bem antes dos
18 anos já se pensava em casamento.
Minha
irmã e eu tínhamos essa fantasia de conto de fadas que nos empurrou
para o casamento. Graças a Deus, os cigarros ficaram no passado. O
pulmão limpinho agradece! Dei umas escorregadelas na faculdade em Mogi
das Cruzes. Comprei uma carteira e comecei a fumar. Nessa fase, morava
na casa de uma família , porque não havia achado vagas. Quando a dona da
casa chegou e subiu para meu quarto se deparou com uma jovem fumando. Sim, era eu! Ao lado, um maço dourado; o cigarro da mulher.
Tinha começado a fumar naquele instante e me sentia uma jovem sensual e
charmosa. Alice( nome fictício) comentou admirada:
-
Você fuma? Não sabia.- olhei para ela e soltei uma baforada.
Lembro-me da tontura que consegui disfarçar direitinho.
-
Comecei a fumar hoje! Eu vi uma colega na faculdade. Ela me disse para experimentar! Acalma os nervos e dá charme à mulher!- afirmei sem encará-la. E voltei aos estudos.
Fumei algum tempo, mas parei quando fui à médica porque estava ficando sem
fôlego. E fumava somente seis cigarros por dia. Nunca mais quis saber
de cigarro. Já pensou se eu tivesse fumando até agora?
No
entanto, era legal sonhar com uma casa somente nossa. Comer quando dava
na telha, estudar quando dava vontade, enfim, liberdade! Os pais eram
sempre chatos. E, com o tempo, os pais passam de chatos para sábios. Mas
tem gente que tem pai chato, mãe chata, irmão chato. O convívio
familiar é assim mesmo. Ninguém tem asa de anjo.
Quando atendo jovens muitos falam com ar sonhador:
"Quero morar sozinho!"
Quando
pergunto os planos do jovem e as suas metas nem sempre eles sabem.
Alguns ficam com o olhar perdido e dão um sorrisinho sem graça:
"- É, mas eu iria precisar de uma mesada, porque não trabalho."
"- Ah, preciso arrumar um trabalho!"
"- Quero ir para bem longe deles!"
"- Pego a mochila,vou e pronto!"- esse jovem saiu mesmo de casa, estudou e se formou. Ralou um pouco, porque chegou à capital sem eira nem beira.
Agora, a juventude está muito mais escolada e, certamente, amadurece
mais cedo. Não é um amadurecimento mesmo tipo- laranja verde para
madura. É um amadurecimento forçado ligado a experiências atropeladas:
começam a fumar muito cedo ou a usar drogas ou mesmo a fazer filhos. Nem
todos claro. Alguns jovens são ambiciosos e objetivos. Começam a
trabalhar muito cedo e sabem muito bem o que desejam. Nem sempre tem
facilidades, mas é isso que os instiga a ir em frente.
Há alguns anos, atendi um jovem muito bonito, filho único. Ficou muito
tempo em casa sem saber o que fazer da vida. Os pais nunca diziam não!
Suas vontades eram sempre satisfeitas. Mal ia à faculdade. Através das
amizades, experimentou maconha e gostou. Ficou dependente da maconha.
Quando os pais dele me procuraram estavam desesperados. João(nome
fictício) fez um longo período de terapia. Parou de fumar maconha, mas
tinha recaídas. Tentou se afastar dos amigos que lhe ofereceram a droga,
mas foi difícil. Ofereciam maconha pra ele nos bares e na faculdade.
Algum tempo depois, os pais acharam melhor mudar de cidade. Fiquei
sabendo que João estava trabalhando. Sem o
convívio das más companhias conseguiu superar o vício.
Bem, não vou começar com um sermão da montanha falando um monte sobre muitas coisas que os jovens estão "carecas" de saber.
Atendi muitos jovens quando era psicoterapeuta e muitos se deram muito
bem fazendo intercâmbio em outro país. No início, ficavam inseguros. Um
rapaz precisou de psicoterapia, porque a namorada se mudou para os
E.U.A. Ele tinha muitas saudades da jovem. O ciúme aumentou demais.
Quando os dois se desencontravam no MSN ele já fantasiava uma traição.
Aos poucos, sua autoestima se fortaleceu bastante enquanto ele
direcionava energia para seus próprios objetivos. Sua tensão e ciúme
perderam o foco, quando ele ficou mais relaxado e seguro de si. Meses
depois, esse rapaz também se mudou para os E.U.A e o casal vai muito
bem, obrigado.
Os pais ficam preocupados quando os filhos deixam o ninho.É muito mais
fácil quando temos um bebê. É só cuidar dele; dar amor e carinho. Se
você o coloca no berço ele não sai. Está sempre sob controle, mas o bebê
cresce. E, como dizia o saudoso Chico Anísio:
"Criança
perde a graça, porque se transforma em gente grande." Gente grande
clama por independência. O pássaro cresce e não cabe mais no ninho.
Acontece o contrário também. Por motivos financeiros, separação, os
filhos adultos voltam para o ninho. O ninho fica apertado, mas sempre se
dá um jeitinho. As famílias modernas são variadas: avó e netos, tios e sobrinhos, mãe solteira e filhos, pai solteiro e filho e por aí vai...
A decisão de estudar fora, morar sozinho, trabalhar fora do país tem que ser muito bem planejada pelos pais ou responsável se o jovem é menor de idade.
No entanto, não tome essa decisão após uma briga com os pais, ou
com tios, família, ou com os irmãos. Em qualquer lugar que você for
morar sempre estará em contato com gente. Se você acha que sua família é
ruim, tudo bem! O mundo está cheio de gente legal, mas também de gente
não tão legal assim...
Bem, minha irmã e eu tínhamos sempre essa conversa de morar só e de ter
uma casa.Conviver com a família nem sempre é fácil. No entanto, só
quando estamos longe é que percebemos que a família também é legal.
Minha primeira experiência de sair de casa foi aos dezoito anos quando fui fazer cursinho pré-vestibular.
Foi bem interessante e engraçada, mas aprendi demais!

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